Casa Vogue - Agosto 2012
ARTE FORA DO MUSEU

Galeria paulistana dedicada ao design moderno exalta a tapeçaria nacional em exposição, a ser realizada em setembro, que estabelece um diálogo entre as obras de Genaro de Carvalho, Jacques Douchez e Jean Gillon.

Por Silvia Albertini

O panorama artístico paulistano não se restringe à rica programação de museus e centros culturais. Algumas lojas e galerias de design da capital paulista têm enriquecido a efervescente cena da cidade com exposições refinadas, não se limitando a expor as peças para vender, mas investindo em cenografia e curadoria. É o caso da Passado Composto Século XX, que abre em setembro uma retrospectiva sobre a tapeçaria moderna brasileira.
A ideia de comemorar os dez anos da fundação do espaço com uma exposição de tapeçarias dos anos 1950 a 1970 surgiu da paixão de sua diretora, Graça Bueno, pelo design moderno brasileiro. “Em 2009, organizamos uma mostra de mobiliário com curadoria de Adélia Borges. A partir daí passamos a fazer exposições periódicas curadas por experts independentes”, conta.
Sob curadoria de Alejandra Muñoz, arquiteta e professora de história da arte na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e integrante da equipe curatorial do Instituto Itaú Cultural, a mostra explora transversalmente as afinidades entre os três maiores artistas da tapeçaria moderna brasileira. A montagem, inédita, inclui peças de Genaro de Carvalho, pintor baiano considerado o pioneiro da tapeçaria mural no Brasil. Além dele, há trabalhos de Jacques Douchez (1921-2012), francês enraizado no Brasil desde 1947, e Jean Gillon (1919-2007), um romeno que aqui residiu a partir de 1956.
“Inicialmente, pensei em focar o olhar na obra de Genaro de Carvalho”, diz a curadora, que em 2012, assinou uma retrospectiva do artista no Museu de Arte da Bahia. “Mas me apaixonei pelo trabalho dos outros dois artistas, e assim pensamos em uma abordagem mais estruturada”, completa. O resultado é uma exposição de tapeçarias planas, bordadas ou de tear, que estabelece um diálogo entre as linhas temáticas dos três artistas. “Tentamos fazer uma costura dos temas relacionados, focando nas especificidades de cada um. Todos usam paletas equilibradas, ainda que com percentual muito forte de cor, e elementos que flertam com a abstração figurativa”, afirma Alejandra. Outro traço comum é a inegável influência artística do francês Jean Lurçat (1892-1966), que, em 1954, conheceu Genaro, na Bahia, em visita a seu ateliê – uma peça de Lurçat integra a mostra.
Além do acervo da Passado Composto Século XX, a exposição apresenta peças de coleções particulares das famílias dos artistas, além de material iconográfico e documental, deixando clara a preocupação da curadoria em tecer uma relação entre as obras, a trajetória histórica e a vivência familiar. “Ao resgatarmos o processo de criação da tapeçaria, incluindo elementos históricos e processuais, a exposição alargou-se bastante”, constata Alejandra.
A mostra, que, além de tapeçarias, inclui estudos, cartões-modelo, vídeos documentais e fotos históricas de acervo, é ilustrada por textos críticos recolhidos em catálogo. Coisa de museu.
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