Genaro de Carvalho
GENARO DE CARVALHO (1926-1971)

Artista múltiplo, exímio desenhista e designer pioneiro, Genaro é considerado o grande iniciador da tapeçaria moderna brasileira. Um dos mais importantes expoentes da primeira geração de modernos da Bahia, ele participou de momentos marcantes da vida cultural brasileira. Com sua musa Nair figuram como personagens em algumas obras de Jorge Amado, tais como “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “Tieta do Agreste”. Acompanhou Glauber Rocha na rodagem de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Foi “Obá de Xangô” no Terreiro Axé do Opô Afonjá, de Mãe Senhora, na Bahia. Participou de documentários como “Imagens do Brasil” (1962) para o Canal TV5 francês, e “Genaro e a Tapeçaria Brasileira” (1967) produzido pelo Setor de Cultura do Departamento de Estado Americano. Incentivou processos decisivos de Ruben Valentim e Jean Gillon. Desenhou cenários giratórios de grande efeito para a peça “Companhia das Índias” de Nelson Araújo, na Escola de Teatro da Bahia. Com seus amigos Jorge Amado e Carybé, viu os Beatles em Londres. Com o fotógrafo Thomas Farkas, assistiu a chegada do homem à Lua. Amigo pessoal de Vinicius de Moraes e Ivo Pitanguy, admirado por personalidades como Juscelino Kubitschek, David Rockefeller, Roberto Marinho, Grande Otelo e a modelo Veruschka, reconhecido pelos principais museus do Brasil e por grandes centros estrangeiros, Genaro teve uma profícua produção alternada entre a celebridade de uma vida social e cultural intensa e o sofrimento decorrente de uma saúde frágil.

Genaro Antônio Dantas de Carvalho nasceu em Salvador, BA, em 1926. Começou a desenhar por motivação do seu pai, um pintor autodidata de fim-de-semana. Aos 17 anos, em 1944, junto a Carlos Bastos e Mário Cravo Junior, participou da 1ª Mostra de Arte Moderna da Bahia. Foi para o Rio de Janeiro para estudar desenho na Sociedade Brasileira de Belas Artes, enquanto terminava o curso científico no Colégio Andrews e, à noite, redesenhava Dona Marocas e Sr. Pafúncio das historias em quadrinhos para o jornal O Globo. Nos finais de semana, remava na Lagoa Rodrigo de Freitas. Desenvolveu a pintura como ação terapêutica contra distúrbios na tireóide. Ainda adolescente, em 1945, fez sua primeira exposição individual na A.B.I. (Associação Brasileira de Imprensa) do Rio de Janeiro e, no ano seguinte, participou de uma coletiva no Museu de Belas Artes. Em 1947, fez a primeira exposição individual na Bahia, na Biblioteca Pública da Cidade de Salvador. Desde então passou a expor, individual ou coletivamente, no Brasil e no exterior, em espaços diversos, desde o lendário Bar Anjo Azul de Salvador ao Museu de L’Hermitage de São Petersburgo. Em pouco mais de 25 anos de vida artística, teve uma produção intensa com mais de setenta mostras.

Em 1949, com bolsa do governo francês, foi estudar com André Lothe e Fernand Léger na École Nationalle de Beaux Arts de Paris. Ao mesmo tempo, foi aluno de Maurice Brunel no curso de Artes Decorativas da Grand Chaumière e ajudante na Oficina de Brinquedos da Cité. Nas férias, após os cursos, percorreu a Itália para conhecer os clássicos. Durante aquele ano assinou a coluna semanal de arte “A Pintura no Tempo”, enviada da França para o jornal A Tarde, de Salvador. Apaixonou-se pela colega Nicole Debout com quem teve uma filha, também chamada Nicole (falecida aos 40 anos, do mesmo mal que seu pai padeceu).

De volta ao Brasil, com 24 anos, a convite do governador Octávio Mangabeira, iniciou a obra “Festas Regionais” no térreo do Hotel da Bahia, primeiro mural moderno do estado, em afresco seco, que levou um ano e meio para ser concluído em seus 44m de extensão. No hall de entrada do mesmo hotel, em todas as paredes do mezanino, pintou “Plantas Tropicais”, obra destruída nos anos 80, cujo tema inspirou as primeiras tapeçarias realizadas em 1953. Em passagem pela Bahia em 1954, o célebre tapeceiro francês Jean Lurçat (1892-1966), ao ver o famoso mural quis conhecer o artista; visitou o ateliê da Praça do Campo Grande, n°3, e, surpreendido com as criações do artista baiano, o convidou para aprender técnicas da tapeçaria na França. No entanto, Genaro preferiu desenvolver seus temas brasileiros como expressão própria a partir do trabalho conjunto com suas tapeceiras baianas e começou a expor suas tapeçarias apenas em 1955. Em paralelo às primeiras tapeçarias, Genaro trabalhou como decorador de interiores, criando desenhos para móveis modernos e, junto aos arquitetos Lev Smarcevsky e Antônio Rebouças, lançou o estilo americano “funcional” na Bahia.

Genaro teve um matrimônio curto com Ana Amélia Menezes, do qual nasceu Ana Amélia que, como sua meia-irmã francesa Nicole, faleceu prematuramente aos 29 anos, também de aneurisma cerebral. Em 1955, conheceu Nair, sua última companheira, durante um desfile de modas no Hotel Copacabana Palace, no qual ela era manequim exclusiva da Rhodia. Em outubro de 1957, casaram-se no Uruguai. Com o apoio permanente de Nair, que passou a secretariar a produção do artista e a supervisionar a elaboração das tapeçarias, Genaro começou a criar de modo intensivo para atender aos pedidos. A crescente receptividade das obras do artista no centro-sul do país motivou mostras cada vez mais importantes e uma legitimação maior em circuitos internacionais.

A convite do governo norte-americano, Genaro e Nair viajaram em 1959 aos Estados Unidos e ao México, para exposição e conferência (sobre artesanato brasileiro) na Universidade de Harvard. Depois, ambos foram ao Novo México visitar as antigas povoações espanholas de Santa Fé, Santa Maria, Albuquerque e Taoos, onde Genaro esteve com o último representante dos Índios Chimayos, tapeceiros por tradição. Seguiram-se exibições em Nova York, São Francisco, Buenos Aires, Zurique, Hamburgo.

Em 1956, Genaro começou a criar desenhos têxteis para a empresa franco-brasileira Matarazzo-Boussac. Logo depois, também realizou estampas de tecidos para a Companhia Rhodia. Em 1960 nasceu a “Coleção Brasiliana”, série de desenhos exclusivos para tecidos 100% algodão nacional, produzidos pela Companhia Deodoro Industrial, no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, a convite do Smithsonian Institution, durante um ano, viajou por museus e galerias dos Estados Unidos. A pedido do Consulado Brasileiro na Filadélfia, realizou cartaz para a Brazilian Exposition – Philadelphia U.S.A., na qual também participou como expositor. Em 1965, a convite de Lurçat e Jaccard, respectivamente presidente e diretor do “Centre International de La Tapisserie Ancienne et Moderne” (CITAM), e do comissário geral, Pierre Pauli, participou da 2ª Bienal Internacional de Tapeçaria, em Lausanne. Depois, em Paris, voltou ao Museu de Cluny para rever as tapeçarias medievais, que considerava de grande inspiração para seu trabalho.

Durante toda a década de 60, após diagnóstico de aneurisma cerebral (tal como tivera seu avô paterno), Genaro fez longo tratamento para controle da pressão arterial, com internações freqüentes desde 1965. Em 1970, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, foi proibido pelos médicos de usar qualquer material ou tinta que exalasse odor, motivo pelo qual fez diversos desenhos a lápis: uma série de “Nus Femininos” e uma série de “Frutos” e “Flores”, que seriam seus últimos temas.

Censurada desde 1968 no Brasil e exibida em Londres em 1969, finalmente em abril de 1971, foi realizada a mostra “Mulatas” na Capela do Museu de Arte Moderna da Bahia, retomando uma figuração que não foi bem recebida pela crítica; em maio, expôs em A Galeria, de São Paulo, e, em junho, realizou sua última mostra na Petite Galerie do Rio de Janeiro. Em 2 de julho, após 13 dias de internação, Genaro faleceu em Salvador aos 44 anos.

Texto: Alejandra Muñoz
Ilustração: Julio Dui
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