Jacques Douchez
JACQUES DOUCHEZ (1921 - 2012)



Jacques Douchez nasceu em 1921 em Mâcon, França. Filho de uma artesã de chapéus e broches familiarizada com o uso de fibras e feltro, Douchez passou sua infância e juventude na Borgonha, desenhando desde início dos anos 1940. De Cluny, vizinha de sua cidade natal, recebeu influências estéticas que sempre reverberaram em seu percurso artístico. Artista talentoso dedicou-se à pintura e à tapeçaria, com uma ampla produção ao longo de mais de 60 anos. Radicado no Brasil aos 26 anos, desde sua chegada em 1947 se estabeleceu em São Paulo, cidade onde morou até falecer em julho de 2012.

Em São Paulo teve aulas com o pintor italiano Caetano de Gennaro (1890-1959) e depois com o romeno Samson Flexor (1907-1971). Com este, em 1951, participou da fundação do Atelier-Abstração que, em nove anos de atividades, nucleou mais de duas dúzias de pintores. Após uma primeira fase muito influenciada por propostas como o De Stijl holandês e as discussões da chamada Segunda Escola de Paris, Flexor passou a explorar o abstracionismo informal. Douchez, contudo, manteve-se fiel ao abstracionismo geométrico sem ser absorvido pelo informalismo que marcou a guinada de vários artistas do grupo na época. No contexto de embates com o figurativismo que caracterizou o concretismo paulista, com o aparecimento de grupos como Ruptura, Douchez começou a consolidar uma linha estética abstracionista muito singular, desatrelada das hierarquias dos concretos, sem redução cromática ao elementar e sem subjugar a cor à forma. Os primeiros destaques de suas obras logo apareceram na Bienal de São Paulo de 1953.

No “Le Grand Livre de la Tapisserie” de 1965, com prefácio de Jean Lurçat, Douchez e Genaro de Carvalho são mencionados como os dois principais expoentes da tapeçaria moderna brasileira. A dimensão desses dois artistas é reforçada pela inclusão de fotografias de duas de suas obras.

Douchez participou de mais de 90 mostras individuais e coletivas, no Brasil e no exterior (Peru, Chile, México, Áustria, Estados Unidos, Portugal, Argentina, Alemanha, Uruguai, Japão, Colômbia, Polônia, Suíça). Entre as exposições mais relevantes, contam-se 19 apresentações de trabalhos em bienais e trienais internacionais, entre as quais a sua participação destacada na VII Bienal Internacional de Tapeçaria em Lausanne, Suíça, em 1975. Suas obras receberam mais de dez premiações, menções e reconhecimentos, a exemplo da menção honrosa na II Bienal de Artes Aplicadas no Uruguai, em 1967, do primeiro prêmio na I Trienal de Tapeçaria do MAM de São Paulo de 1976, e do destaque da Trienal Internacional de Tapeçaria de Lodz, na Polônia, em 1985.

Presente nos eventos mais importantes no campo das poéticas das fibras, Douchez foi fundamental no desenvolvimento da linguagem da tapeçaria no Brasil. A técnica de tapeçaria decorativa brasileira começou nos anos 1940, com a fábrica Tapetes Regina, de Regina Graz, onde trabalharam umas 30 tecelãs que produziam abajures, almofadas, colchas, tapetes e cortinas. Mas a tapeçaria moderna, problematizada como linguagem artística, nasceu em 1953 com o ateliê de Genaro de Carvalho na Bahia. Em 1957, Regina vendeu os teares da sua empresa para Tapetes Parahyba, de São José dos Campos, que, além de produzir cobertores, fez tapeçarias com desenhos de artistas como Roberto Burle Marx. Naquele mesmo ano, com Norberto Nicola (1930-2007), Douchez formou o Atelier Douchez-Nicola, onde foi trabalhar Gerturde, a melhor tecelã de Regina. Entre 1967 e 1968, a partir dos cartões-modelo de Roberto Burle Marx, executaram as tapeçarias em tear do Palácio dos Arcos (Itamaraty) de Brasília.

O ateliê funcionou até 1980, mas Douchez continuou investigando e produzindo novas possibilidades de trabalhos com fibras. Suas tapeçarias, executadas em tear, no inicio eram planas, porém, aos poucos, as peças foram ganhando um campo tridimensional, talvez inspiradas no trabalho das artistas Magdalena Abakanowicz (Polônia) e Jagoda Buic (Iugoslávia) que, na II Bienal da Tapeçaria de Lausanne, em 1965, apresentaram as primeiras peças que rompiam com o plano tradicional das urdiduras e que tiveram larga influência nos tapeceiros da época.

Nos anos 1990, o artista retomou a pintura, sempre numa linha abstrata. Em dezembro de 1998 a peça “Madona com o Menino Jesus (A Dama)” foi reproduzida em cartões de Natal da UNICEF.

Em 2003, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, foi apresentada uma grande retrospectiva das tapeçarias de Douchez, intitulada “Plano e Relevo – Geometrias Abstratas e Formas Tecidas”, sob curadoria de Antonio Carlos Abdalla, quem, em 2011 realizou também a última mostra individual do artista “Geometrismo Lírico” na galeria Lordello & Giobbi, em São Paulo, focalizando suas pinturas.

Texto: Alejandra Muñoz
Ilustração: Julio Dui
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