Bruno Mathsson - Revista Wish Report - edição 41 - 2010
Páginas 184 a 189

O marceneiro que tocava violino

Um dos melhores designers suecos do século 20, Bruno Mathsson nunca deixou de viver em sua cidade natal, de apenas 20.000 habitantes. Parte do seu mobiliário pode ser encontrado em São Paulo.

Por Fernanda Cirenza

O sueco Bruno Mathsson (1907-1988) nasceu marceneiro. Aprendeu a trabalhar com a madeira ao lado do pai, Karl, que era mestre do ofício na pequena cidade de Värnamo. Ainda criança, quando estava longe do martelo e dos pregos, tocava violino, gostava das composições de Tchaikovsky, e se deitava na neve fofa e gelada só para sentir como o corpo se adaptava ali. O trabalho com o pai fez com que Mathsson adquirisse um profundo conhecimento da estrutura das madeiras. Talvez por isso ele tenha se tornado o homem que mais radicalmente incorporou o ideário moderno da funcionalidade na Suécia.
Parte do ótimo mobiliário de Mathsson foi incorporado à Passado Composto, misto de loja e galeria de design que fica nos Jardins, em São Paulo. Graça Bueno, proprietária do espaço, diz: “Escolhi os móveis dele pela leveza nas formas, resistência, conforto e beleza, qualidades que justificam o título que ele tem, de melhor designer sueco do século 20”. Mas a herança de Mathsson não é apenas uma questão sueca. É uma história para todos nós.

Discípulo competente do finlandês Alvar Aalto (1898-1976), ele criou poltronas, cadeiras e banquetas de braços e pernas sinuosos, que respeitavam a curvatura do corpo. Há quem afirme que foi o primeiro designer a pensar a ergonomia do mobiliário. Deu a muitas de suas peças nomes de mulheres, como a cadeira Eva (1941), a poltrona Miranda (1942), a banqueta Ana (1945) e a chaise longue Pernilla (1945).

Construídas apenas com encaixes (sem elementos de fixação, como pregos), as peças chegam a lembrar o sistema do brinquedo Lego, criado na Dinamarca nos anos 50. Heloisa Dallari, arquiteta e professora de História da Arte, diz que a comparação é possível, mas reforça: “Ele buscou a curva ideal da madeira, criando traços de um mobiliário orgânico em um estilo único”. Meticuloso e detalhista, o marceneiro-designer laminava a madeira com água (o comum era a vapor, um processo mais rápido), que garantia a produção de móveis absurdamente fortes na estrutura, mas leves no desenho. Na época, não eram móveis de fácil aceitação. Uma de suas primeiras cadeiras ganhou o apelido de Gafanhoto (1931). Desenhada para atender a um pedido do Hospital de Värnamo, que queria algo moderno e genuinamente sueco para decorar a sala de espera, não fez sucesso de cara. Parecia confortável, mas sem molas ou estofados. Era inovadora demais e acabou estacionada no sótão da instituição.

Só que o insucesso não bloqueou a criatividade do designer. Sua passagem da pequena Värnamo (no Sul do país, e hoje com cerca de 20.000 habitantes) para o mundo ocorreu em 1937, ano em que Mathsson expôs na Feira Mundial de Paris, causando impacto. Dois anos depois, ele estava representado no MoMa, de Nova York. O mobiliário moderno sueco ultrapassava as fronteiras e outras muitas exposições aconteceram na sequência. Apesar da fama além-Värnamo, Mathsson nunca deixou a cidade onde nasceu.

Nem por isso foi um homem isolado. Ao contrário. Manteve contato estreito com designers do mundo todo, que resultou em obras que entraram para a história, como a mesa Elipse (1968), criada em parceria com o matemático dinamarquês Piet Hein. Embora seu mobiliário não carregue Nenhum traço de modismo, como acontecia com a indústria americana, ele tinha os olhos bem espertos para a produção americana. Tanto que, na década de 40, foi para os EUA com o ojetivo de analisar de perto obras de gente que já era importante no cenário da arquitetura e do design no Novo Mundo. Eram trabalhos de Frank Lloyd Wright, Charles e Ray Eames, Walter Gropius (fundador da Bauhaus alemã) e Hans Knoll (da marca Knoll).

Essa experiência foi marcante a ponto de, depois dela, Mathsson projetar a sua própria casa em Värnamo, que até hoje guarda os violinos do designer e os clássicos discos de Tchaikovsky. Antes dessa obra, o designer e a mulher, Karen, só tinham morado em pensões para artistas. À beira de um lago, a casa mistura madeira, concreto e grandes vidraças. As esquadrias são finas, dando um aspecto de moradia de palitos gigantes, como se fosse um jogo de montar – uma natureza sutil, mas semelhante à proposta dos móveis. “A moradia traz a natureza para dentro dela. Em um país extremamente frio, a combinação de madeira e natureza representa um conforto até psicológico”, diz Heloísa Dallari. Essa casa foi o primeiro projeto de mais de 40 que ele fez para moradias, escolas e hospitais na Suécia, Dinamarca Portugal e Japão.

Voluntarioso, teimoso e inteligente, o artesão que virou designer e arquiteto de prestígio tinha um conceito de estética simples, mas exigente. “Em toda a obra de Mathsson, seja no mobiliário, seja na arquitetura, existe a combinação entre beleza e a forma como função”, diz Heloisa Dallari. Foi também um sujeito incansável. Escreveu uma série de livros e, mesmo com idade avançada, acompanhou com entusiasmo o inicio da era digital. “Ele já tinha uns 80 anos quando projetou uma linha de mobiliário de escritório que tem as qualidades do móvel do futuro”, diz ela. A herança do designer parece não ser apenas uma questão sueca. Trata-se de uma história para todos nós.

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