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PLANO E RELEVO – ARTE E DESIGN | SP-ARTE 2022

A Galeria Passado Composto Século XX, com curadoria conjunta de Antonio Carlos Suster Abdalla e de Graça Bueno, apresentou em abril, na SP-Arte 2022, a mostra coletiva Plano e Relevo – Arte e Design, com tapeçarias artísticas históricas e design moderno brasileiros.

Compõe a exposição uma série de tapeçarias planas históricas do início da década de 1960 e trabalhos escultóricos de 1973 a 2002, todas executadas em tear manual. Entre os artistas selecionados, os nomes dos pintores abstrato-geométricos Jacques Douchez (1921-2012) e Norberto Nicola (1930-2007), egressos do Atelier Abstração de São Paulo, fundado por Samson Flexor, integram o núcleo inicial da mostra. Neste segmento constam trabalhos em guache sobre papel e em óleo sobre tela. Flexor admirava muito a pintura em o guache, quer pela homogeneidade, quer pelo aspecto aveludado do resultado obtido. Todos os alunos do Atelier pintaram muito com essa técnica antes de usarem a tinta a óleo.

No que se refere Douchez, considerado um grande artista brasileiro mas nascido na França, há quatro obras que merecem destaque especial. São dois guaches de 1949 (ano em que ele entrou para o grupo de Flexor) e dois óleos, todos com histórias bastante interessantes: os primeiros integraram a primeira exposição de arte abstrata no Brasil – uma exposição coletiva, dos artistas do Atelier na Galeria Do Mulato em 1950. O Mulato era também um artista plástico e na sua galeria expuseram grandes nomes das artes visuais do país – um capítulo que merece um registro mais completo, que não será abordado aqui. A galeria era na Rua Barão de Itapetininga, na Galeria Barão, num prédio com arquitetura de Oscar Niemeyer. Essa galeria é muito destacada no centro de São Paulo e lá existe um grande mosaico de Portinari que, numa exceção na obra dele, é um trabalho geométrico abstrato.

Em 1958 o Atelier fez uma exposição na Roland Arnelle Gallery, de Nova York. A mostra foi reconhecida e teve muito sucesso. As obras não vendidas voltaram para São Paulo de navio, que era mais seguro. Ao chegarem à alfândega de Santos, por um incidente nunca totalmente esclarecido, essas obras foram perdidas em definitivo. Nunca mais se conseguiu localizá-las e uma decepção tomou conta dos alunos de Flexor. Esse clima precipitou o final do Atelier Abstração. Havia obras por terminar na casa do Atelier e este é o caso dos dois óleos presentes nesta SP-Arte. Estavam “nos cavaletes”, para serem terminados, e isso não aconteceu. São duas pinturas non finito (não terminadas) – emprestando um termo italiano mais utilizado para esculturas. São importantes como um registro do encerramento de um período marcante para a pintura do Brasil. Anexamos à pesquisa uma foto do arquivo de Jacques Douchez pintando uma das obras participantes da desta SP-Arte no Atelier Abstração em 1958.

A inclusão desses trabalhos é um início de história do Atelier Douchez-Nicola de Tapeçarias pois foi depois do encerramento do Abstração que os dois amigos se lançaram nessa nova empreitada e passaram a revolucionar a arte da tapeçaria artística por aqui.

Fundado em 1959, o atelier conjunto perdurou até 1980, numa iniciativa bastante única no nosso cenário das artes visuais.

Destes premiados artistas de carreira internacional destacamos algumas significativas obras têxteis, entre as quais “Remanso” (também com seu estudo em guache) e “Barca Egípcia”, que participaram da primeira exposição do Atelier Douchez-Nicola, em 1961, na Galeria Sistina, em São Paulo. “Guirlanda”, integrou em 1965 da 8ª Bienal de São Paulo e a obra escultórica “Poente”, de c. 1973. De Norberto Nicola destacamos: “Composição 1967”, participante da 9ª Bienal de São Paulo, em 1967 e “Ciranda”, de 2002, uma das últimas criações do artista, que integrou recentemente, entre 2021 e 2022, a aclamada exposição “Os pássaros de fogo levantarão voo novamente – As Formas Tecidas de Jacques Douchez e Norberto Nicola” com MAM-SP com a inédita curadoria de assume vivid astro focus (avaf - coletivo de arte contemporânea organizado por Eli Sudbrack).

O artista e designer Jean Gillon (1919-2007), nascido na Romênia e naturalizado brasileiro, participa da mostra, com obras de colorido tropical, sendo uma tapeçaria bordada em petit point de 1973, cercada por 12 estudos de tapeçaria em guache, de 1969 a 1980, de abstratos a orgânicos, com temas inspirados na natureza e na identidade brasileira, e também com sua poltrona “Jangada”, ícone do design nacional, criada em 1968, reproduzida na capa do livro “Jean Gillon: artista-designer”, publicado pela Editora Olhares em 2021, e que é reeditada atualmente com exclusividade pela Galeria Passado Composto Século XX.

Sylvio Palma (1946-1978), artista que expressava em suas obras a sua paixão pela natureza, que está ricamente representada com uma tapeçaria de monumental (3,31 X 2,21), com tema de exuberância vegetal, bordada à mão e com variações cromáticas em azul.

Eva Soban, artista premiada em 1979 pelo MAM-SP com sua obra têxtil, participou de exposições marcantes para a história da tapeçaria artística nacional, como da 1ª Mostra de Tapeçaria Brasileira em 1974 no MAB-FAAP, e das três Trienais de Tapeçaria realizadas pelo MAM-SP em 1976, 1979 e 1982, tendo exposto na maioria destas mostras coletivas em simultaneidade com os quatro artistas selecionados por esta curadoria: Douchez, Nicola, Gillon e Sylvio Palma. Eva é uma ativa artista contemporânea e tem destaque nesta mostra com a sua atraente obra circular realizada com sua técnica inovadora de fios diversos, intitulada “Fez-se a Luz 6”, de 2021, que fez parte da exposição “O gênesis segundo Eva Soban”, com curadoria de Denise Mattar, no Museu de Arte Sacra de São Paulo, em 2022.

A exposição está ambientada essencialmente com raros móveis modernos brasileiros, dos designers Joaquim Tenreiro (1906-1992), Sergio Rodrigues (1927-2014), Jorge Zalszupin (1922-2020) e Jean Gillon (1919-2007). A ambientação conta também com um exemplar da poltrona “Amanta”, ícone internacional da década de 1960, do designer italiano Mario Bellini (1935-), além de uma obra de arte têxtil antiga (1300-1400 d.c.) da cultura andina Chancay e de objetos contemporâneos de etnias indígenas brasileiras. A iluminação da mostra é enobrecida por peças de design contemporâneo em cristal de rocha da designer e antiquária Cida Santana, fundadora da marca Passado Composto em 1988.


SERVIÇO DA MOSTRA NA SP-ARTE 2022:

Curadoria: Antonio Carlos Suster Abdalla e Graça Bueno
Realização: Galeria Passado Composto Século XX e equipe
Expografia: Giovanna Verdini

Localização:
Setor de Design, STAND DS4
Pavilhão da Bienal
Parque Ibirapuera, portão 3
Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n
São Paulo, Brasil

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