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MELODIAS DAS TRAMAS | Por Alejandra Muñoz


O que é uma melodia? Basicamente uma combinação de tom e ritmo que costuma prevalecer sobre um acompanhamento de fundo. Na música, uma melodia apresenta uma ou mais frases ou motivos musicais que, quase sempre, se repetem de diversas formas ao longo de uma composição. Agora, faça uma breve pausa e olhe para o seu redor.

A Passado Composto Século XX convida aos visitantes da SP-Arte 2025 a ouvir com os olhos as melodias de um belo conjunto de tapeçarias e desenhos. O artista que produziu estas obras foi um exímio conhecedor de música e uma figura fascinante da cena baiana recente.

Aminthas Jorge Cravo (Aracaju/SE, 1927 - 2015, Salvador/BA), conhecido como Cravinho entre amigos e familiares, foi um talentoso artista que começou a explorar a tapeçaria a partir de 1972. As intrincadas tramas de cores, fibras e formas das suas obras configuram uma metáfora tanto da sua dedicada paixão musical quanto das intimas relações artísticas da sua vida.

Segundo sua amada esposa, a astróloga Edna Cravo, Cravinho nasceu com o Sol em Touro, posicionado no setor da auto expressão, e com Lua em Libra, símbolo da beleza, das artes e da música, localizado no ponto mais alto do mapa natal. Uma vida artística anunciada desde o berço. Todavia, para muitos, o sobrenome soe familiar: Cravinho é irmão do escultor Mário Cravo Jr, tio do fotógrafo Mário Cravo Neto, o Mariozinho, e tio-avó dos também fotógrafos Christian, Lukas e Akira Cravo.

Sem dúvidas, a família prodigiosa favoreceu um contexto especial para Cravinho, mas não basta para apreciar a qualidade artística dos resultados.

Desde adolescente, o artista desenvolveu um acurado senso estético, principalmente musical. Com 15 anos de idade, conheceu e conversou com Orson Wells em sua passagem por Salvador. Em 1947, enviado pelo pai aos Estados Unidos para estudar administração de empresas, desistiu logo dos balancetes e dos números enquanto aprimorava um amplo conhecimento musical assistindo a shows de estrelas como Frank Sinatra, Duke Ellington, Stan Kenton e Nat King Cole, dentre muitos outros. Em uma única tarde assistiu três vezes ao mesmo show de Billie Holiday. Se aproximou de músicos como Sarah Vaughan, Carmen Miranda e Tony Bennet. A partir de uma loja no Village de Nova Iorque, começou a montar uma coleção de discos de vinil que ampliou e consolidou ao voltar ao Brasil em fins de 1949, sobretudo em viagens ao Rio para comprar e encomendar LPs importados na lendária Lojas Murray. Tornou-se colunista sobre música norte-americana nos jornais da Bahia e produziu apresentações para TV. "Tive o privilégio de privar da amizade dos, a meu ver, maiores cantores da música popular brasileira: Orlando Silva, Lúcio Alves e João Gilberto" disse em um dos livros que escreveu.

Em algum momento dos dias do vinil, começou a desenhar por sugestão do seu irmão Mário e incentivado por amigos como Carybé e Jorge Amado. Foi retratado por Lênio Braga e Carlos Bastos.

Depois do pioneirismo de Genaro de Carvalho, Cravinho foi explorar a tapeçaria quando já contava com mais de 40 anos. Com o apoio de Edna, que orientava as bordadeiras baianas e colaborava na administração do ateliê, em pouco tempo obteve sucesso tanto comercial quanto da crítica. O reconhecimento artístico ficou explícito na boa receptividade das diversas mostras individuais que fez no Brasil e nas coletivas internacionais de bienais e trienais que participou. Produziu mais de três centenas de tapeçarias que atualmente integram importantes coleções particulares e acervos institucionais do Brasil e do exterior.

Formas abstratas, por vezes lembrando estratos geológicos ou linhas de topografias imaginárias, foram cadenciando para temas figurativos reconhecíveis como exuberantes flores tropicais. Como notações de uma partitura, Cravinho desenvolveu possibilidades de métricas e ritmos a partir de paletas de cores bem delimitadas, mas potencializadas por nuanças de combinações e contrastes. A escala de suas criações abrange desde abstrações sugestivas de silenciosas extensões rochosas ou de closes vulcânicos segundos antes de uma erupção, até densos casarios urbanos sem horizontes inspirados por fotografias de percursos por Salvador. Curiosamente, é raro encontrar alguma figura humana nas suas obras.

Alguns de seus desenhos com hidrocor, a maioria cartões-modelo para tapeçarias, conjugam sutilmente, quase imperceptíveis, pequenos contrapontos de relevo através de fragmentos de papel colado sobre a superfície maior.

Como nas batidas da bossa nova, lembram pequenos contratempos entre o tema principal e a voz do cantor. E se o tom de cor necessário não existia no novelo de lã, Cravinho misturava duas ou três linhas diferentes para construir minúsculos vibratos para cada ponto bordado. Se aproxime de uma tapeçaria e observe como aquela cor que você percebe a distância é composta por duas ou três linhas de cores bem diferentes.

Assim como no jazz cada instrumento tem espaço para desenvolver o tema principal, nas tapeçarias de Cravinho as grandes manchas predominantes de cor, se enriquecem com os solos de alguns contrastes. As tramas revelam um nível de sutilezas perceptíveis em uma escuta mais parcimoniosa. Então, vá com calma e desfrute desses compassos imaginários uma e outra vez.

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