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Tramas Atlânticas | Por Paulo César Garcez Marins


O Atlântico pode ser facilmente considerado um espaço que, por seu gigantismo, afasta povos e experiências individuais. Mas este oceano foi também um meio fundamental de conexão entre continentes e sociedades, aproximando culturas e transportando sentidos e tradições.

O artista franco-brasileiro Jacques Douchez (1921-2012) foi um dos artífices da aproximação entre Europa, América e África ao longo dos séculos XX e XXI. Como seu compatriota Pierre Verger, o fotógrafo, intelectual e iniciado que tantas vezes atravessou o Atlântico para mediar e revelar as ligações entre esses três continentes, Douchez também estreitou as imensas distâncias desse oceano por meio de sua arte e de sua paixão pela arte abstrata, que costura três continentes.

Suas obras planas e tridimensionais conciliam a abstração vinda da Europa, e renovada também por ele no Brasil, com as cores fortes e contrastantes que a natureza tropical de nosso país lhe sugeriu, como as tapeçarias Vortice e Messidor demonstram, assim como Guirlanda, que participou da VIII Bienal de São Paulo, em 1965.

Já a tapeçaria Aguapé traz em seu nome a herança indígena, matriz primeira de nosso país, que nomeou, em tupi, as plantas finas e redondas que recobrem lagos, pântanos e igarapés. Douchez entremeou suas formas em uma sinfonia abstrata de cores, que apenas sugere sua inspiração vegetal.

A África é evocada na monumental tapeçaria Yaundé, de 1968, apresentada na primeira edição do Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP, em 1969. Seu nome evoca a capital dos Camarões, país em que se faceiam os povos bantus do Sul e os grupos sudaneses do Norte, em torno do golfo do Benin e da Nigéria. Máscaras se insinuam nessas tramas abstratas de Douchez, que nos lembram nossas raízes intensas com o imenso continente do outro lado do Atlântico, cujos povos, que para cá foram trazidos à força pela escravização, fizeram do Brasil um país também negro.

Paulo César Garcez Marins, Historiador
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