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Rodrigo Bueno - Vozes da Jurema | Por Denise Mattar - ROTAS 2026


Rodrigo Bueno

Vozes da Jurema

Ateliê Mata Adentro

Há uma mata que antecede a cidade. Sob o asfalto, entre os muros, nas frestas do concreto, ela permanece em estado de espera. Não exatamente adormecida, mas à espreita. Basta uma fissura para que uma raiz encontre passagem, uma semente se instale e o verde retome silenciosamente aquilo que um dia lhe pertenceu.

Essa imagem atravessa a obra de Rodrigo Bueno há muitos anos. Em sua prática, a natureza nunca é apenas paisagem ou tema. É presença ativa, matéria e força transformadora. Madeiras descartadas, móveis encontrados, fibras, plantas e objetos que já cumpriram outras funções ingressam em novos ciclos de existência. Nada parece definitivamente encerrado. A matéria guarda memória e, sob as mãos do artista, germina.

Seu ateliê: casa, jardim, laboratório, espaço de encontros e experiências coletivas, tem o expressivo nome de Mata Adentro. Mais do que um título, ele materializa uma ideia essencial de sua poética: não contemplar a natureza de fora, mas entrar nela, reconhecendo que somos por ela atravessados.

Em sua pesquisa mais recente, entretanto, Rodrigo amplia essa dimensão, alcançando um território de memória, resistência e espiritualidade. Vozes da Jurema, mostra aqui apresentada, reúne algumas dessas obras, que se debruçam sobre aspectos ainda pouco conhecidos e estudados dos nossos povos originários. Afinal, quem é, ou o que é, Jurema?

Jurema é uma palavra de muitas existências. Designa diferentes plantas, dá nome à bebida utilizada em práticas rituais indígenas do Nordeste e nomeia também uma dimensão espiritual ligada às forças das matas. Mais do que isso, pertence a um vasto conjunto de conhecimentos ameríndios construídos e transmitidos ao longo do tempo. Apesar das violências, deslocamentos e tentativas de apagamento que marcaram a história dos povos originários, a Jurema permaneceu e se transformou, tornando-se um dos emblemas de sua presença e de sua relação com o território.

Essa história, porém, não permaneceu circunscrita a um único mundo. Os africanos, trazidos à força para o Brasil, tampouco chegaram destituídos de memória. Trouxeram consigo cosmologias, divindades, relações com os ancestrais, conhecimentos da natureza e diferentes maneiras de compreender a vida, a morte e o sagrado. Em território brasileiro, universos ameríndios e africanos foram colocados em contato sob as condições brutais da colonização e da escravidão. Desse encontro não resultou simplesmente a substituição de uma crença por outra, nem uma fusão capaz de apagar suas diferenças. Ao longo do tempo, constituíram-se zonas de contato, reconhecimento, negociação e transformação, nas quais conhecimentos e presenças espirituais puderam circular entre mundos distintos.

Talvez poucas histórias revelem de maneira tão extraordinária a profundidade desses atravessamentos quanto a de Malunguinho, personagem africano real que se transmutou numa das principais entidades da Jurema. No início do século XIX, as matas do Catucá, que se estendiam entre Recife, Olinda e a zona açucareira de Pernambuco, tornaram-se território de resistência para comunidades formadas por homens e mulheres que escapavam da escravidão. Não buscavam apenas esconder-se na floresta, mas construir nela uma possibilidade de existência e liberdade. Assim se estabeleceu um dos mais importantes quilombos da região, que sobreviveu, durante anos, às sucessivas expedições enviadas para destruí-lo.

Em 1827, surge nos documentos oficiais o nome de Malunguinho como liderança do Catucá. Foi o mais perseguido dos líderes quilombolas desse período, e por sua captura ou morte estipulou-se a maior recompensa até então oferecida por alguém em Pernambuco. Seu próprio nome guarda uma história de travessias: malungo designava companheiros que haviam compartilhado a passagem atlântica no mesmo navio negreiro. Talvez fosse apenas uma alcunha, usada para confundir os perseguidores. Os documentos, escritos pelos próprios agentes da repressão, não permitem encerrar essa história numa única interpretação. E talvez seja justamente aí que ela adquira sua maior potência.

Oficialmente, João Batista, o Malunguinho, foi morto em combate em 18 de setembro de 1835. Mas o homem perseguido pelas tropas imperiais atravessou a história e passou a habitar o território do encantamento. No universo da Jurema, continua vivo, abrindo caminhos e protegendo seus seguidores. Tornou-se Reis Malunguinho: Mestre, Caboclo e Exu, evocado no início das cerimônias como presença protetora, aquele a quem se pede licença e que abre os caminhos.

Há nessa passagem algo que toca profundamente Rodrigo Bueno. O artista reconhece, no encontro entre conhecimentos ameríndios e africanos, uma relação de respeito entre mundos que, mesmo distintos, foram capazes de acolher presenças uns dos outros e produzir novas configurações espirituais. É nesse território de aproximações que também se inscrevem as figuras dos caboclos, tão presentes em diferentes tradições religiosas brasileiras. A mata, então, deixa definitivamente de ser cenário. É abrigo e conhecimento, território de resistência e lugar de encantamento. É espaço físico, mas também espiritual. Nela, as fronteiras tornam-se porosas: entre o visível e o invisível, vida e morte, natureza e cultura, realidade e sonho.

Esses atravessamentos encontram correspondência na própria construção das obras de Rodrigo, nas quais as fronteiras também são instáveis. Sua pintura é feita de múltiplas camadas. Cores intensas, pinceladas direcionais, brilhos e contrastes produzem superfícies que parecem estar permanentemente em movimento. As figuras emergem da pintura sem jamais se separar inteiramente dela. Ora aparecem com nitidez, ora parecem novamente absorvidas pela trama de gestos, linhas e cores que as circunda. A pintura não descreve simplesmente uma presença: faz com que elas apareçam.

Essa energia dificilmente se contém nos limites da tela, e a matéria continuamente escapa da identidade que lhe havia sido atribuída. A linha pintada transforma-se em linha bordada; que cresce e rompe a superfície; a madeira encontrada torna-se moldura, as fibras industriais convivem com sisal, cabaças e madeiras trazidas pela maré. Móveis destinados ao descarte reaparecem cobertos por fios e cores, e a estridência artificial do plástico ganha inesperada exuberância.

As vozes começam a ganhar corpo: Jurema emerge na terracota cercada pela serpente e coroada por cacaus; reaparece na pintura como figura solar e misteriosa, de olhos ardentes. Boiúna, a Cobra Grande ligada a cosmologias indígenas amazônicas, toma forma numa tapeçaria em que fio, bordado, sisal, cabaça e madeira de maré compõem uma superfície simultaneamente animal, vegetal e cósmica. Em Vajucá, pintura, bordado e madeira atravessam os limites convencionais da tela. Já Reis Malunguinho é uma pintura-painel que se adensa como mata cerrada, na qual o poderoso personagem parece simultaneamente pertencer à floresta e emergir dela. Omulu, Tecelã, Restinga e Hortifruti ampliam essa constelação de presenças, matérias e procedências.

Não há, portanto, uma narrativa única, nem seria desejável procurá-la. Rodrigo não está interessado em ilustrar essas entidades, tampouco em dissolvê-las numa espiritualidade indistinta, mas em aproximá-las, permitindo que permaneçam singulares e, ao mesmo tempo, reverberem umas nas outras.

Talvez seja esse o sentido mais fértil do título Vozes da Jurema. Jurema não deve ser compreendida como personagem que governa as demais. Deve ser percebida como território de escuta e ressonância, no qual diferentes presenças encontram possibilidade de manifestação. Rodrigo não fala por esses mundos; aproxima-se deles, escuta-os e estabelece relações. Seu gesto é menos o de explicar do que o de criar condições para que as vozes compareçam. Por isso, sua relação com a espiritualidade não se reduz à ilustração de uma religião ou à representação de um mundo invisível como repertório exótico. O que está em jogo é outra possibilidade de relação entre matéria e espírito, humano e vegetal, objeto e memória, passado e presente.

Jurema e Malunguinho não são sobrevivências de um passado remoto. Permanecem porque foram transmitidos, recriados e atualizados. O estudo antropológico da Jurema mostra que essas tradições circulam e se transformam, adquirindo novos sentidos, sem perder sua capacidade de produzir pertencimento. Talvez seja essa ideia de permanência pela transformação que aproxime tão profundamente esses universos da poética de Rodrigo Bueno.

Na mata, tudo permanece vivo. A folha cai e se torna húmus. A árvore morta alimenta outras vidas. A semente desaparece para que outra forma possa nascer. Da mesma forma os objetos recolhidos pelo artista precisam deixar de ser aquilo que eram para voltar a existir. Há nisso uma ecologia, certamente, mas principalmente uma visão de mundo, que se contrapõe às separações rígidas entre natureza e humanidade, matéria e espírito, arte e vida, útil e inútil. Rodrigo constrói aproximações. Não busca restaurar uma natureza original nem imaginar um passado intacto. Trabalha precisamente sobre aquilo que sobreviveu: restos, fragmentos, memórias, objetos abandonados, narrativas que atravessaram séculos e práticas espirituais que resistiram às sucessivas tentativas de apagamento. Por isso, a mata que emerge dessas obras não é uma floresta idealizada. É uma mata atravessada pela história. A mesma floresta que serviu de abrigo aos fugitivos do Catucá, guarda as forças espirituais evocadas pela Jurema. Ela foi derrubada para dar lugar à cidade e à monocultura; mas, apesar de tudo, continua encontrando brechas por onde retornar.

Talvez seja essa a imagem mais inquietante que a obra de Rodrigo Bueno nos oferece: não temos envergadura para salvar a natureza. Somos apenas uma passagem em seu tempo. Enquanto discutimos sua destruição, alguma raiz já procura uma rachadura. Uma semente espera. Uma mata inteira permanece, silenciosamente, à espreita.

E um dia voltará.

Denise Mattar

Denise Mattar

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