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Desejos de Design | Matéria de memória - Por Mônica Barbosa


Mônica Barbosa

Em sua matéria "Desejos de Design - Matéria de Memória", a jornalista Mônica Barbosa relata sua visita à SP-Arte Rotas, realizada em agosto de 2026, na ARCA, em São Paulo. A feira, que propôs ampliar o mapa da arte brasileira e, naquela edição, aprofundar o diálogo com a América Latina, despertou na jornalista uma reflexão sobre a força da memória na arte e no design brasileiros.

Ao percorrer a feira, Mônica Barbosa relata ter saído fortalecida pelo contato com tantas referências de um Brasil marcado por memórias autênticas, históricas e afetivas - muitas delas preservadas em objetos e materiais que fazem parte da vida cotidiana. Foi nesse contexto que a série Hortifruti, de Rodrigo Bueno, apresentada pela Galeria Passado Composto Século XX, despertou seu interesse e sua sensibilidade.

A série reúne antigas poltronas de varanda revestidas pelo artista com sacos de ráfia utilizados no transporte de batatas, cebolas, abóboras e outros alimentos provenientes do Ceasa. Os materiais foram encontrados em uma cooperativa de catadores próxima ao Ateliê Mata Adentro, na Lapa, e incorporados às peças em um processo de transformação que caracteriza uma pesquisa desenvolvida por Bueno ao longo de sua trajetória.

O artista denomina "re-função" essa possibilidade de atribuir um novo ciclo de vida aos objetos e materiais, deslocando-os de sua função original e incorporando-os a novas construções. Em Hortifruti, essa operação ganha uma dimensão particularmente significativa, pois os materiais não perdem completamente as marcas de sua origem: ao contrário, carregam consigo referências ao cotidiano, ao trabalho, à circulação dos alimentos e às experiências comuns da vida brasileira.

Para Mônica Barbosa, porém, Hortifruti ultrapassa a questão da transformação da matéria. Em sua leitura, a série representa, sobretudo, um "desejo de memória". As cores e os materiais utilizados por Rodrigo Bueno remetem a lugares e situações reconhecíveis por muitos brasileiros: a varanda da avó, a feira, o mercado, a casa brasileira. São referências familiares que despertam lembranças sem recorrer diretamente à nostalgia.

É justamente nessa relação entre familiaridade e contemporaneidade que a jornalista identifica a força da obra. As poltronas, originalmente destinadas ao uso cotidiano, retornam transformadas, incorporando materiais que também carregam suas próprias histórias. O passado não é reconstruído literalmente, mas permanece presente por meio de vestígios, cores, texturas e objetos que ganham uma nova função e um novo significado.

A reflexão de Mônica Barbosa evidencia, assim, uma dimensão fundamental da pesquisa de Rodrigo Bueno: a capacidade de transformar materiais aparentemente banais ou descartados em objetos que ativam a memória individual e coletiva. Em Hortifruti, matéria e memória se encontram, estabelecendo uma relação entre o cotidiano brasileiro, a transformação dos objetos e a criação contemporânea.

Como observa a jornalista, a série é "familiar sem ser nostálgica" - e talvez seja justamente nessa condição que resida sua permanência. Ao preservar algo reconhecível de um universo vivido e, simultaneamente, apresentá-lo sob uma nova perspectiva, Rodrigo Bueno transforma a memória em matéria viva, capaz de atravessar o tempo e adquirir novos sentidos.

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